Amortizar o crédito habitação ou investir? As contas para 2026

A 10 de setembro de 2026 o BCE subiu as taxas pela segunda vez este ano e a Euribor a 6 meses está perto de 3%. Ao mesmo tempo, acabou a isenção da comissão de amortização nos créditos de taxa variável. Se tens 10.000 euros de lado, a pergunta volta a fazer sentido: abater ao crédito da casa ou pôr o dinheiro a render? Fizemos as contas, em euros, já com IRS e comissões.

A carregar as taxas em vigor…

A regra que resolve metade da dúvida

Cada euro que amortizas deixa de pagar juros à TAN do teu crédito até ao fim do contrato. Por isso, amortizar é o mesmo que fazer um investimento que rende exactamente a TAN, sem risco e sem imposto. Com a Euribor a 6 meses em 2,99% e um spread de 1%, isso dá uma TAN de 3,99%.

O pormenor do imposto pesa. Os juros de um depósito, dos Certificados de Aforro ou as mais-valias de um ETF pagam 28% de IRS. Os juros que deixas de pagar ao banco não pagam nada, e desde 2012 também não são dedutíveis no IRS para os contratos novos. Para igualar uma amortização a 3,99%, precisas de um investimento que renda cerca de 5,5% brutos por ano. Hoje nenhum produto sem risco chega lá: os Certificados de Aforro estão no teto de 2,5% e a média dos novos depósitos a prazo ronda 1,6%.

O que mudou em 2026: a comissão voltou

Entre o fim de 2022 e 31 de dezembro de 2025, quem tinha crédito de taxa variável podia amortizar sem pagar comissão. As propostas para prolongar a isenção foram chumbadas no Orçamento do Estado para 2026 e voltou a regra geral: o banco pode cobrar até 0,5% do capital amortizado nos contratos de taxa variável e até 2% nos de taxa fixa. Nos créditos com taxa mista, o limite depende da taxa que está a correr no momento da amortização.

Em euros, amortizar 10.000 euros custa no máximo 50 euros num crédito variável. É menos de dois meses dos juros que vais poupar, por isso a comissão não muda a decisão. Na taxa fixa a conversa é outra: 200 euros de comissão sobre uma TAN que, em muitos contratos feitos entre 2020 e 2022, fica abaixo dos 2%. Aí amortizar raramente compensa.

Reduzir a prestação ou o prazo?

Quando amortizas, o banco pergunta o que queres fazer com a diferença. Para um crédito de 150.000 euros em dívida, 25 anos até ao fim e TAN de 3,99%, a prestação actual é de 791 euros. Com uma amortização de 10.000 euros:

OpçãoPrestaçãoPrazoJuros poupados
Não amortizar791 €25 anos—
Reduzir a prestação738 € (−53 €)25 anos5.820 €
Reduzir o prazo791 €22 anos e 4 meses15.686 €

Reduzir o prazo poupa quase três vezes mais juros, porque o capital desce mais depressa em todos os meses seguintes. Reduzir a prestação faz sentido quando o orçamento está apertado ou quando a próxima revisão da Euribor te vai subir a prestação. Podes testar outros montantes e taxas no simulador de crédito habitação.

10.000 euros: amortizar ou investir, ano a ano

A tabela mostra quanto ganhas com os mesmos 10.000 euros em cada opção, já com IRS e comissões. Na coluna "Amortizar" está o que deixas de dever face a não amortizar, mantendo a prestação e com TAN constante de 3,99%, já descontados os 50 euros de comissão. Os Certificados de Aforro incluem os prémios de permanência. Nos ETFs usamos dois cenários de rentabilidade média anual, 6% e 3%, com IRS pago só na venda.

PrazoAmortizar (3,99%, sem IRS)Certificados de AforroDepósito médio (1,59%)ETF a 6%/anoETF a 3%/ano
1 ano+356 €+181 €+114 €+432 €+216 €
5 anos+2.154 €+1.018 €+586 €+2.435 €+1.147 €
10 anos+4.845 €+2.315 €+1.206 €+5.694 €+2.476 €
25 anos+17.027 €+8.873 €+3.292 €+23.701 €+7.875 €

Contra os produtos sem risco, a amortização ganha sempre. Rende cerca do dobro dos Certificados de Aforro e três a cinco vezes mais do que um depósito médio, em qualquer prazo. Enquanto a TAN do teu crédito estiver acima de 3%, guardar dinheiro "parado" num depósito e ao mesmo tempo pagar juros ao banco é perder dinheiro nas duas pontas.

Contra os ETFs, depende do cenário. Se os mercados renderem 6% ao ano, uma hipótese prudente face à média histórica dos índices mundiais, investir ganha por uma margem que só se torna grande ao fim de 15 a 25 anos. Se renderem 3%, perde. A amortização dá-te um resultado certo; o ETF dá-te uma expectativa maior com a possibilidade real de ficar abaixo, sobretudo em prazos curtos. A coluna de 1 ano do ETF, em particular, é só uma média: num ano mau, os 10.000 euros podem valer menos do que no início.

A Euribor a subir muda as contas

Num crédito de taxa variável, a "rentabilidade" da amortização acompanha a Euribor. Se o BCE voltar a subir e a Euribor a 6 meses passar para 3,5%, a tua TAN vai para 4,5% e amortizar passa a valer como um investimento de mais de 6% brutos. Se a Euribor descer, a vantagem encolhe. Os mercados discutem hoje mais subidas, não descidas, e explicámos os cenários no artigo Euribor vai subir ou descer?. Para quem tem taxa fixa, nada disto se aplica: a TAN está travada e é com ela que deves comparar.

Antes de amortizar, confirma estes quatro pontos

1. Tens fundo de emergência? O dinheiro que vai para o crédito não volta. Se o carro avariar ou perderes rendimento, o banco não te devolve a amortização. Guarda primeiro três a seis meses de despesas num sítio com liquidez, como os Certificados de Aforro ou uma conta poupança, e só amortiza o que sobra.

2. Tens dívidas mais caras? Crédito pessoal, crédito automóvel ou cartão de crédito cobram TAN de 7% a 15% ou mais. Qualquer euro livre deve ir primeiro para essas dívidas, muito antes do crédito à habitação.

3. O teu spread e os seguros estão bem negociados? Às vezes a melhor "amortização" é renegociar. Baixar o spread de 1,5% para 0,8% num crédito de 150.000 euros vale quase 60 euros por mês, sem gastares um cêntimo das tuas poupanças. O mesmo para o seguro de vida, que podes contratar fora do banco.

4. Estás a aproveitar os benefícios fiscais da reforma? Se investes num PPR, recuperas 20% do valor em dedução no IRS, até ao limite do teu escalão de idade. Esse benefício imediato pode fazer o PPR ganhar à amortização nos primeiros anos, dependendo das comissões e da rentabilidade do produto.

Como decidir em dois minutos

Crédito de taxa variável, TAN acima de 3,5%, fundo de emergência feito e sem outras dívidas: amortiza, reduzindo o prazo. É um retorno garantido de 3,5% a 4,5% sem imposto e sem risco, melhor do que qualquer alternativa segura disponível hoje.

Crédito de taxa fixa abaixo de 2,5%: não amortizes. A comissão de 2% e a TAN baixa fazem com que os próprios Certificados de Aforro, com prémios de permanência, rendam quase o mesmo mantendo o dinheiro disponível.

Horizonte de 15 anos ou mais e tolerância a oscilações: considera dividir. Por exemplo, metade para amortizar e metade para investir todos os meses em ETFs diversificados. Reduz o custo do crédito e dá-te exposição ao crescimento dos mercados, sem apostares tudo num único cenário. Vê o efeito de investir todos os meses na calculadora de juros compostos.

Orçamento apertado ou prestação prestes a subir: amortiza reduzindo a prestação. Poupas menos juros, mas ganhas folga mensal quando mais precisas dela.

Perguntas frequentes

Quanto custa amortizar o crédito habitação em 2026?

A isenção nos contratos de taxa variável terminou a 31 de dezembro de 2025. Em 2026 os bancos podem cobrar até 0,5% do capital amortizado na taxa variável e até 2% na taxa fixa: no máximo 50 euros ou 200 euros por cada 10.000 euros amortizados.

É melhor amortizar reduzindo a prestação ou o prazo?

Reduzir o prazo poupa mais juros. Num crédito de 150.000 euros a 25 anos com TAN de 3,99%, amortizar 10.000 euros reduzindo o prazo poupa cerca de 15.700 euros de juros, contra cerca de 5.800 euros se reduzires a prestação.

Que rentabilidade preciso para compensar investir em vez de amortizar?

Amortizar rende a TAN do crédito, sem imposto. Com TAN de 3,99%, precisas de cerca de 5,5% brutos por ano antes do IRS de 28% para empatar. Só investimentos com risco, como ETFs de acções, têm historicamente rendido mais do que isso.

Os juros do crédito habitação são dedutíveis no IRS?

Apenas nos contratos celebrados até 31 de dezembro de 2011, com um limite anual. Para a grande maioria dos créditos actuais não são, o que torna a amortização ainda mais vantajosa face a investimentos tributados a 28%.

Antes de amortizar, compara propostas

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